Discurso proferirido no encontro sobre o Tape Aviru (Peabiru) em Pitangas - PR - BRA
Palavras que constroem mundos
Bons dias a todos, senhoras e senhores, mulheres e homens!
É com imensa honra que trago aqui uma breve contribuição neste encontro internacional sobre o Caminho do Peabiru.
Peço desculpas por não iniciar me apresentando corretamente, explicando quem sou e porque estou aqui. Mas prometo que isso será corrigido ao longo do texto que vou ler, cujo título é
"palavras que constroem mundos".
Numa manhã fria, não muito diferente das outras manhãs em que acordamos cedo esperando que o calor saia de trás da montanha e espante as nuvens que insistem em nos cobrir, parecendo mães que demoram a perceber nos filhos a necessidade de tomar seu lugar ao sol.
Ainda me espreguiçava sobre o colchão, dentro da casinha de madeira construída no alto do morro, que nos dias de vento sul nos obriga a agradecer a habilidade das mãos indígenas do mestre de obras, se não voaríamos como uma pipa em direção ao asfalto. E é deste temeroso asfalto que vem o ruído interminável dos caminhões e carros, levando e trazendo além de pessoas, parte da riqueza produzida nas indústrias do extremo sul do país. Como uma imensa cobra negra - lembrando da profecia dos velhos que ali moravam, sobre o dia da aparição de uma imensa cobra que levaria muitas vidas - temos estrada, que faz centenas de pessoas, diariamente, cortar a aldeia, sem pedir licença, nem dizer Adeus. E enquanto eles passam, nós ficamos...
Quem são estes? Os que ficam? São conhecidos como Guarani, reconhecidos como a maior nação indígena que habita o território do Mercosul; porém desconhecidos da população brasileira, argentina e uruguaia, e por vezes considerados fatos do passado ou confundidos com estrangeiros.
Desta aldeia, que de um lado tem o Rio Massiambu, de outro o antigo "porto solis", hoje Enseada do Brito, local de milenar habitação guarani. A este pequeno espaço exprimido pela exploração turística das belas praias catarinenses é que vivem algumas famílias indígenas, em casinhas inacreditavelmente grudadas no morro. E quando não suportam mais o ruído da auto estrada (que será duplicado em pouco tempo, em nome do progresso!) mudam-se para a Aldeia Massiambu: outro morro de 5 hectares, resgatado por um decreto judicial após a prisão do proprietário, um traficante de cocaína que ali vivia.
Neste contexto, tendo o dia clareado um pouco mais e as nuvens aprendido com as mães arrependidas por cobrirem os filhos muito tempo, é que o sol aparece permitindo que busquemos seu calor.
A luz penetra na casa iluminando o rosto de Leonardo, o Wera Tupã, liderança indígena nacional, intelectual guarani, grande pesquisador da própria cultura e da cultura dos brancos. Agora, além de ídolo, meu grande amigo e companheiro de quarto. Foi nesta manhã, quando cumpríamos o ritual do despertar, vagarosamente como o movimento das nuvens, ele me surpreendeu com um convite.
- Quero que você vá a um lugar para mim.
- Sim - aceitei acreditando que não passaria de uma visita a um de nossos amigos, para levar ou trazer alguma coisa.
- Lembra daquele encontro que fui, sobre o Tape Aviru?
- Sim, lembro. Foi no Paraná.
- Acontecerá novamente e quero que você vá no meu lugar.
Surpreso, confesso que não compreendi qual seria minha utilidade nesta ocasião.
- Você vai participar do encontro e falar sobre os guarani - disse ele, percebendo rápido minha aflição.
- Como assim? Mas eu não sou guarani... - retruquei.
- Mas você já trabalhou como pesquisador pela Universidade, já viajou para várias aldeias, agora trabalha como professor aqui na nossa escola e está morando com agente. Acredito que sabe o suficiente para tirar as dúvidas do pessoal no encontro...
- Ou confundi-los mais ainda! - afirmei entre risos. Eles irão perguntar meu nome. O que direi? Não quero que pensem que tenho interesse particular nisso.
- Então - disse Werá Tupã - diga aquilo que te falei um dia. Que diz uma profecia Guarani que alguns brancos iriam nascer com alma indígena, e iriam dedicar suas vidas a nos ajudar. Uma vez você mesmo falou que nunca se adaptou a vida na cidade e, quando conheceu uma aldeia, sentiu como se estivesse em casa. Este é um sinal de Tupã. E a estas pessoas nós os chamamos de "Tupã Ray" - os Filhos de Tupã. Diga também que você não é o único Tupã Ray que conheço. Também tem a Rosana Bond, mas ela é Tupã Radhy - Filha de Tupã. Com certeza lá terão muitos outros.
Quando começava a imaginar-me falando a uma platéia, pensei em desistir, mas fui interrompido pela chegada do Tcheramoi. Tcheramoi é a palavra guarani traduzida como "meu avô", porém é mais do que isso. Ela é usada para todos os mais velhos das aldeias, tenha ou não uma relação de parentesco. Eles são como as bibliotecas, os arquivos da cultura indígena, sabem de tudo e tem conselhos para tudo. São os sábios que garantem a passagem dos conhecimentos às novas gerações. E este que recém chegou é de uma linhagem que só aparece na cabeça das pessoas, não tem existência real, mas vive dando conselhos aos mais novos a toda hora, não importa o que estejam fazendo.
- Aceita ou não? - perguntou Werá Tupã.
- Sim... - disse eu, repetindo a voz do Tcheramoi dentro da minha cabeça. - Mas o que vou dizer a eles?
- Você vai explicar a situação das aldeias, como vivemos, os problemas que enfrentamos...
- Mas se trata de um encontro sobre o Tape Aviru. Ele não vão querer ouvir a versão dos próprios guarani?
- Sim, mas é disso mesmo que você vai falar: que nosso problema começa na descoberta do Tape Aviru pelos europeus. Foi pelo caminho sagrado que eles entraram em contato com nossa aldeias. Você pode dizer também que as principais estradas de hoje, como a própria BR 101, é uma sobreposição ao antigo caminho sagrado. E que também as cidades foram construídas sobre as aldeias.
- Sim - concordei. - Posso contar que os antigos usavam o Tape Aviru para andar por todo o território guarani, que não se resume ao limite das atuaios demarcações, mas desde o Paraguay, Argentina, Bolívia, Uruguay até o Brasil, encontrando o Oceano Atlântico.
- E não esqueça que, graças ao Tape Aviru, hoje os brancos construíram este países que você nomeou, vivendo tranqüilos hoje. E isso não seria possível se os guarani se negassem a ensinar os caminhos, levando-os até o interior do continente.
Um silêncio se fez neste momento. Silêncio comum nas aldeias indígenas. Momento em que as pessoas param de falar para refletir, contemplar. Ou talvez ouvir a voz do Tcheramoi. Aliás, não sei o que este disse a Wera Tupã, mas consegui ouvir as palavras sussurradas na minha cabeça: "E se tivéssemos nos negado?!"
Como quem fala sozinho, passei a conversar com Tcheramoi.
"Se tivessem negado, os fatos com certeza seriam diferentes. Muitas aldeias poderiam estar protegidas pelas matas e os guarani, como outras nações indígenas, viveriam do jeito que seus deuses os ensinaram. Nada faltaria!"
Talvez Tcheramoi tenha me ouvido, e resolveu responder através de Wera Tupã, que interrompeu o silêncio dizendo:
- Não se esqueça de falar que os guarani sentem-se enganados por confiarem nos brancos. O trauma é tão grande que até hoje uma pessoa branca tem de conviver muito tempo para confiarmos nela. Os antigos acreditaram que os europeus eram pessoas sagradas, dignas de respeito, assim como consideravam que os Incas eram Nhanderu Mirim, os perfeitos. Queriam aprender com os brancos como aprenderam com os Incas, e por isso ensinaram o que sabiam, mas no final fomos enganados.
Outro silêncio comovedor instalou-se. Respirei fundo e perguntei:
- Mas não houve nenhuma guerra entre os guarani e os brancos em 1500?
- Não - respondeu. - Não era costume do Guarani fazer guerra, sempre buscamos a paz e, por isso nos espalhamos por este território do Paraguay ao Brasil, por que não queríamos confusão e preferíamos nos afastar.
- Muitos brancos tem escrito livros dizendo que os guarani, em suas caminhadas, faziam guerras contra outros povos. O que vou dizer se eles perguntarem sobre isso?
- Aí você pode contar a eles que a guerra começou depois da chegada dos europeus aqui.
- Isso sei fazer bem - afirmei - Estudei um pouco sobre filosofia e conheço as raízes do pensamento ocidental. Vou lembrá-los então que, na verdade, quem tem cultura de guerra não são os indígenas; mas os ocidentais. Poderia contar a eles sobre a diferença que há entre os mitos de origem dos guarani e dos gregos. Os guarani, por exemplo, contam a história dos gêmeos (sol e lua) que saíram em busca da casa de seu pai. No caminho não lembro de ouvir falar que travaram guerra com alguém. Já os ocidentais, se analisarmos as histórias gregas, encontraremos o relato de muitas batalhas. Primeiramente, no próprio mito de surgimento do mundo, contavam os gregos que Urano, primeiro habitante da terra, teria sido morto por seu próprio filho, Kronos. Este, então, matava seus descendente para evitar que fizessem consigo o que fez com o pai. Mas, por fim, Zeus, filho de Kronos que conseguiu fugir, voltou quando adulto para aniquilar o pai. Este mesmo Zeus depois se tornaria o imperador do universo.
- E os brancos contam esta história aos mais jovens? - perguntou Wera Tupã.
- Você acha? - satirizei - Talvez nem eles saibam. Esta história é muita antiga e, acredito eu, está tão entranhada da cultura ocidental o suficiente para pensarem que todos os povos travaram batalhas. Até vivem repetindo na TV de que temos de ser competidores se não estaremos fracassados. Competição , para mim, é uma forma de guerra. Sutil, mas é uma guerra. Quem sabe um dia faça um estudo sobre a microfísica da Guerra!
- O que? - perguntou Werá Tupã.
Percebendo minha viajem, tratei de retornar logo.
- Quanto aos próprios Incas, pesquisadores dizem que eram dominadores. O que até poderiam ser, mas nada parecido com a dominação feita pelos europeus.
- Talvez - brincou Wera Tupã - eles digam que outros eram dominadores para aliviar o peso na consciência.
Depois das divagações, brincamos um pouco mais com as palavras, mas ainda confuso, perguntei:
- Mas por que exatamente resolveram levantar a história do Tape Aviru agora, por que não o fizeram antes? E qual interesse há nisto?
- Não sei direito - sorriu ele - mas tem a ver com turismo. - Mas o que interessa para os Guarani é que saibam que ainda estamos aqui, não somos parte do passado e temos grande participação na história destes países. Isto deve ser reconhecido.
Tcheramoi, mais uma vez surgiu em nossas cabeças. Me disse coisas que fez pensar que, até agora, muitos brancos não sabiam do Tape Aviru, nem do grupo de Aleixo Garcia. Mas com a realização destes encontros somada a uma forte divulgação, aos poucos o que é discurso irá se transformando em realidade. Mas qual realidade será construída no futuro?
E se eu aproveitasse a ocasião para perguntar aos interessados quais seus verdadeiros interesses? Não seria quebrar demais o protocolo?
- Mas você não está no colo de ninguém para quebrá-lo - disse Tcheramoi, num pulo, falando alto, quase me causando dor de cabeça.
- Sim, eu sei. - eu disse. - Mas há que tomar cuidado com a diplomacia!
-Então não se esqueça de levar seu diploma! - retrucou o velho imaginário, já de costas, indo embora.
É... pelo visto terei de cumprir esta missão sozinho!
Mas procurarei fazer suavemente, com introdução e tudo exatamente como aprendi na Academia. Lá vai.
Recentemente estive no Peru, em visita às ruínas Incas. Impressionei-me com a beleza, obviamente, mas também me chamou a atenção a intensiva presença Inca na vida do país. Não a riqueza, mas a pobreza. Pelas ruas, são as crianças, descendentes do império incaico, quem nos param para suplicar que compremos suvenires. Pelas cidades, são as casas e barracos dos poderosos Incas que se grudas nas montanhas. No Caminho Inca, são os que trazem nas veias o sangue dos antepassados que carregam nossas barracas e mochilas, que preparam nossa refeição, que desmontam tudo e montam outra vez. Tudo isso em troca de alguns dólares ou euros vindos diretamente das mãos estrangeiras: os turistas!
A dúvida seria a seguinte: qual risco que corremos, nós, os indígenas de... de...
(Desculpem. É que Tcehramoi acaba de chegar aqui, está presente conosco e me deixando com dor de cabeça. Diz ele que eu devo perguntar logo, se não vai me obrigar a sentar em seu colo! - risos)
Qual mundo que será construído pelas palavras ditas neste encontro? Para, mais uma vez, buscar o tesouro através do Tape Aviru? Ou realmente devolver o caminho aos indígenas para que possam encontrar a terra sem mal?
Que esta pergunta não se perca nos caminhos do pensamento!
(Silêncio...)
(Diz o Tcheramoi, aqui ao meu lado, que Aleixo Garcia também está presente! Confirmou que, como um filho que quis sair da sombra da mãe muito cedo, Garcia se arrependeu por buscar tão gananciosamente um lugar no Império do Sol! Pois junto a sua tragédia ambiciosa, acabou levando uma nação que o havia conferido um segredo.)
Bons Dias a todos.
Pitangas, Paraná, 17 de Abril de 2005
Tupã Ray
Palavras que constroem mundos
Bons dias a todos, senhoras e senhores, mulheres e homens!
É com imensa honra que trago aqui uma breve contribuição neste encontro internacional sobre o Caminho do Peabiru.
Peço desculpas por não iniciar me apresentando corretamente, explicando quem sou e porque estou aqui. Mas prometo que isso será corrigido ao longo do texto que vou ler, cujo título é
"palavras que constroem mundos".
Numa manhã fria, não muito diferente das outras manhãs em que acordamos cedo esperando que o calor saia de trás da montanha e espante as nuvens que insistem em nos cobrir, parecendo mães que demoram a perceber nos filhos a necessidade de tomar seu lugar ao sol.
Ainda me espreguiçava sobre o colchão, dentro da casinha de madeira construída no alto do morro, que nos dias de vento sul nos obriga a agradecer a habilidade das mãos indígenas do mestre de obras, se não voaríamos como uma pipa em direção ao asfalto. E é deste temeroso asfalto que vem o ruído interminável dos caminhões e carros, levando e trazendo além de pessoas, parte da riqueza produzida nas indústrias do extremo sul do país. Como uma imensa cobra negra - lembrando da profecia dos velhos que ali moravam, sobre o dia da aparição de uma imensa cobra que levaria muitas vidas - temos estrada, que faz centenas de pessoas, diariamente, cortar a aldeia, sem pedir licença, nem dizer Adeus. E enquanto eles passam, nós ficamos...
Quem são estes? Os que ficam? São conhecidos como Guarani, reconhecidos como a maior nação indígena que habita o território do Mercosul; porém desconhecidos da população brasileira, argentina e uruguaia, e por vezes considerados fatos do passado ou confundidos com estrangeiros.
Desta aldeia, que de um lado tem o Rio Massiambu, de outro o antigo "porto solis", hoje Enseada do Brito, local de milenar habitação guarani. A este pequeno espaço exprimido pela exploração turística das belas praias catarinenses é que vivem algumas famílias indígenas, em casinhas inacreditavelmente grudadas no morro. E quando não suportam mais o ruído da auto estrada (que será duplicado em pouco tempo, em nome do progresso!) mudam-se para a Aldeia Massiambu: outro morro de 5 hectares, resgatado por um decreto judicial após a prisão do proprietário, um traficante de cocaína que ali vivia.
Neste contexto, tendo o dia clareado um pouco mais e as nuvens aprendido com as mães arrependidas por cobrirem os filhos muito tempo, é que o sol aparece permitindo que busquemos seu calor.
A luz penetra na casa iluminando o rosto de Leonardo, o Wera Tupã, liderança indígena nacional, intelectual guarani, grande pesquisador da própria cultura e da cultura dos brancos. Agora, além de ídolo, meu grande amigo e companheiro de quarto. Foi nesta manhã, quando cumpríamos o ritual do despertar, vagarosamente como o movimento das nuvens, ele me surpreendeu com um convite.
- Quero que você vá a um lugar para mim.
- Sim - aceitei acreditando que não passaria de uma visita a um de nossos amigos, para levar ou trazer alguma coisa.
- Lembra daquele encontro que fui, sobre o Tape Aviru?
- Sim, lembro. Foi no Paraná.
- Acontecerá novamente e quero que você vá no meu lugar.
Surpreso, confesso que não compreendi qual seria minha utilidade nesta ocasião.
- Você vai participar do encontro e falar sobre os guarani - disse ele, percebendo rápido minha aflição.
- Como assim? Mas eu não sou guarani... - retruquei.
- Mas você já trabalhou como pesquisador pela Universidade, já viajou para várias aldeias, agora trabalha como professor aqui na nossa escola e está morando com agente. Acredito que sabe o suficiente para tirar as dúvidas do pessoal no encontro...
- Ou confundi-los mais ainda! - afirmei entre risos. Eles irão perguntar meu nome. O que direi? Não quero que pensem que tenho interesse particular nisso.
- Então - disse Werá Tupã - diga aquilo que te falei um dia. Que diz uma profecia Guarani que alguns brancos iriam nascer com alma indígena, e iriam dedicar suas vidas a nos ajudar. Uma vez você mesmo falou que nunca se adaptou a vida na cidade e, quando conheceu uma aldeia, sentiu como se estivesse em casa. Este é um sinal de Tupã. E a estas pessoas nós os chamamos de "Tupã Ray" - os Filhos de Tupã. Diga também que você não é o único Tupã Ray que conheço. Também tem a Rosana Bond, mas ela é Tupã Radhy - Filha de Tupã. Com certeza lá terão muitos outros.
Quando começava a imaginar-me falando a uma platéia, pensei em desistir, mas fui interrompido pela chegada do Tcheramoi. Tcheramoi é a palavra guarani traduzida como "meu avô", porém é mais do que isso. Ela é usada para todos os mais velhos das aldeias, tenha ou não uma relação de parentesco. Eles são como as bibliotecas, os arquivos da cultura indígena, sabem de tudo e tem conselhos para tudo. São os sábios que garantem a passagem dos conhecimentos às novas gerações. E este que recém chegou é de uma linhagem que só aparece na cabeça das pessoas, não tem existência real, mas vive dando conselhos aos mais novos a toda hora, não importa o que estejam fazendo.
- Aceita ou não? - perguntou Werá Tupã.
- Sim... - disse eu, repetindo a voz do Tcheramoi dentro da minha cabeça. - Mas o que vou dizer a eles?
- Você vai explicar a situação das aldeias, como vivemos, os problemas que enfrentamos...
- Mas se trata de um encontro sobre o Tape Aviru. Ele não vão querer ouvir a versão dos próprios guarani?
- Sim, mas é disso mesmo que você vai falar: que nosso problema começa na descoberta do Tape Aviru pelos europeus. Foi pelo caminho sagrado que eles entraram em contato com nossa aldeias. Você pode dizer também que as principais estradas de hoje, como a própria BR 101, é uma sobreposição ao antigo caminho sagrado. E que também as cidades foram construídas sobre as aldeias.
- Sim - concordei. - Posso contar que os antigos usavam o Tape Aviru para andar por todo o território guarani, que não se resume ao limite das atuaios demarcações, mas desde o Paraguay, Argentina, Bolívia, Uruguay até o Brasil, encontrando o Oceano Atlântico.
- E não esqueça que, graças ao Tape Aviru, hoje os brancos construíram este países que você nomeou, vivendo tranqüilos hoje. E isso não seria possível se os guarani se negassem a ensinar os caminhos, levando-os até o interior do continente.
Um silêncio se fez neste momento. Silêncio comum nas aldeias indígenas. Momento em que as pessoas param de falar para refletir, contemplar. Ou talvez ouvir a voz do Tcheramoi. Aliás, não sei o que este disse a Wera Tupã, mas consegui ouvir as palavras sussurradas na minha cabeça: "E se tivéssemos nos negado?!"
Como quem fala sozinho, passei a conversar com Tcheramoi.
"Se tivessem negado, os fatos com certeza seriam diferentes. Muitas aldeias poderiam estar protegidas pelas matas e os guarani, como outras nações indígenas, viveriam do jeito que seus deuses os ensinaram. Nada faltaria!"
Talvez Tcheramoi tenha me ouvido, e resolveu responder através de Wera Tupã, que interrompeu o silêncio dizendo:
- Não se esqueça de falar que os guarani sentem-se enganados por confiarem nos brancos. O trauma é tão grande que até hoje uma pessoa branca tem de conviver muito tempo para confiarmos nela. Os antigos acreditaram que os europeus eram pessoas sagradas, dignas de respeito, assim como consideravam que os Incas eram Nhanderu Mirim, os perfeitos. Queriam aprender com os brancos como aprenderam com os Incas, e por isso ensinaram o que sabiam, mas no final fomos enganados.
Outro silêncio comovedor instalou-se. Respirei fundo e perguntei:
- Mas não houve nenhuma guerra entre os guarani e os brancos em 1500?
- Não - respondeu. - Não era costume do Guarani fazer guerra, sempre buscamos a paz e, por isso nos espalhamos por este território do Paraguay ao Brasil, por que não queríamos confusão e preferíamos nos afastar.
- Muitos brancos tem escrito livros dizendo que os guarani, em suas caminhadas, faziam guerras contra outros povos. O que vou dizer se eles perguntarem sobre isso?
- Aí você pode contar a eles que a guerra começou depois da chegada dos europeus aqui.
- Isso sei fazer bem - afirmei - Estudei um pouco sobre filosofia e conheço as raízes do pensamento ocidental. Vou lembrá-los então que, na verdade, quem tem cultura de guerra não são os indígenas; mas os ocidentais. Poderia contar a eles sobre a diferença que há entre os mitos de origem dos guarani e dos gregos. Os guarani, por exemplo, contam a história dos gêmeos (sol e lua) que saíram em busca da casa de seu pai. No caminho não lembro de ouvir falar que travaram guerra com alguém. Já os ocidentais, se analisarmos as histórias gregas, encontraremos o relato de muitas batalhas. Primeiramente, no próprio mito de surgimento do mundo, contavam os gregos que Urano, primeiro habitante da terra, teria sido morto por seu próprio filho, Kronos. Este, então, matava seus descendente para evitar que fizessem consigo o que fez com o pai. Mas, por fim, Zeus, filho de Kronos que conseguiu fugir, voltou quando adulto para aniquilar o pai. Este mesmo Zeus depois se tornaria o imperador do universo.
- E os brancos contam esta história aos mais jovens? - perguntou Wera Tupã.
- Você acha? - satirizei - Talvez nem eles saibam. Esta história é muita antiga e, acredito eu, está tão entranhada da cultura ocidental o suficiente para pensarem que todos os povos travaram batalhas. Até vivem repetindo na TV de que temos de ser competidores se não estaremos fracassados. Competição , para mim, é uma forma de guerra. Sutil, mas é uma guerra. Quem sabe um dia faça um estudo sobre a microfísica da Guerra!
- O que? - perguntou Werá Tupã.
Percebendo minha viajem, tratei de retornar logo.
- Quanto aos próprios Incas, pesquisadores dizem que eram dominadores. O que até poderiam ser, mas nada parecido com a dominação feita pelos europeus.
- Talvez - brincou Wera Tupã - eles digam que outros eram dominadores para aliviar o peso na consciência.
Depois das divagações, brincamos um pouco mais com as palavras, mas ainda confuso, perguntei:
- Mas por que exatamente resolveram levantar a história do Tape Aviru agora, por que não o fizeram antes? E qual interesse há nisto?
- Não sei direito - sorriu ele - mas tem a ver com turismo. - Mas o que interessa para os Guarani é que saibam que ainda estamos aqui, não somos parte do passado e temos grande participação na história destes países. Isto deve ser reconhecido.
Tcheramoi, mais uma vez surgiu em nossas cabeças. Me disse coisas que fez pensar que, até agora, muitos brancos não sabiam do Tape Aviru, nem do grupo de Aleixo Garcia. Mas com a realização destes encontros somada a uma forte divulgação, aos poucos o que é discurso irá se transformando em realidade. Mas qual realidade será construída no futuro?
E se eu aproveitasse a ocasião para perguntar aos interessados quais seus verdadeiros interesses? Não seria quebrar demais o protocolo?
- Mas você não está no colo de ninguém para quebrá-lo - disse Tcheramoi, num pulo, falando alto, quase me causando dor de cabeça.
- Sim, eu sei. - eu disse. - Mas há que tomar cuidado com a diplomacia!
-Então não se esqueça de levar seu diploma! - retrucou o velho imaginário, já de costas, indo embora.
É... pelo visto terei de cumprir esta missão sozinho!
Mas procurarei fazer suavemente, com introdução e tudo exatamente como aprendi na Academia. Lá vai.
Recentemente estive no Peru, em visita às ruínas Incas. Impressionei-me com a beleza, obviamente, mas também me chamou a atenção a intensiva presença Inca na vida do país. Não a riqueza, mas a pobreza. Pelas ruas, são as crianças, descendentes do império incaico, quem nos param para suplicar que compremos suvenires. Pelas cidades, são as casas e barracos dos poderosos Incas que se grudas nas montanhas. No Caminho Inca, são os que trazem nas veias o sangue dos antepassados que carregam nossas barracas e mochilas, que preparam nossa refeição, que desmontam tudo e montam outra vez. Tudo isso em troca de alguns dólares ou euros vindos diretamente das mãos estrangeiras: os turistas!
A dúvida seria a seguinte: qual risco que corremos, nós, os indígenas de... de...
(Desculpem. É que Tcehramoi acaba de chegar aqui, está presente conosco e me deixando com dor de cabeça. Diz ele que eu devo perguntar logo, se não vai me obrigar a sentar em seu colo! - risos)
Qual mundo que será construído pelas palavras ditas neste encontro? Para, mais uma vez, buscar o tesouro através do Tape Aviru? Ou realmente devolver o caminho aos indígenas para que possam encontrar a terra sem mal?
Que esta pergunta não se perca nos caminhos do pensamento!
(Silêncio...)
(Diz o Tcheramoi, aqui ao meu lado, que Aleixo Garcia também está presente! Confirmou que, como um filho que quis sair da sombra da mãe muito cedo, Garcia se arrependeu por buscar tão gananciosamente um lugar no Império do Sol! Pois junto a sua tragédia ambiciosa, acabou levando uma nação que o havia conferido um segredo.)
Bons Dias a todos.
Pitangas, Paraná, 17 de Abril de 2005
Tupã Ray

1 Comments:
Olá
Me chamo Juliana Sakae, sou estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina e no momento estou realizando um projeto de documentário sobre O Peabiru. Me interessei muito sobre o texto que você escreveu, sei que você quer permanecer anônimo, mas poderia entrar em contato comigo?
Obrigada,
Juliana Sakae
jusakae@gmail.com
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