21.10.05

Palavra Guarani - Carta aos amigos do futuro

Palavra Guarani

Carta aos amigos do futuro

Está amanhecendo.

É hora de reabrir as portas e janelas. Respirar fundo o ar ainda gelado do inverno que se vai.
Varrer a memória das casas para expulsar cinco séculos de frieza e deixar o calor da esperança penetrar com o cheiro das flores da primavera.

Saudamos aos Ypês, com seus galhos envelhecidos como a pele de nossos avós, suas flores coloridas nos lembrando que um novo tempo começa e, a partir de agora, a terra pode ser preparada para a plantação.

Assim também permanecem nossos corações Guarani, pulsantes de sangue e sentimento indígena, humano e terrestre. Somos sim filhos desta terra, por isso a tratamos como nossa mãe e a reverenciamos como condição de nossa existência. Preparar o coração para a plantação é adubar a vida para dar bons frutos.

O próximo passo é acender o fogo, para acalentar a água do mate, que aqui é tomado todas a manhãs energizando o corpo, assim como abrasar o fumo no cachimbo para acalentar o espírito e energizar o Planeta Terra. Parece exigir demais de uma fogueira, dando-a missão de, além da iluminação no interior de uma casa de barro e taquara, iluminar os corações de todos os seres vivos.

Mas é a isso que nos propomos e pedimos aos deuses através de nossas rezas e canções, diariamente, pois aqui não se reza apenas para si, ou para sua família, mas reza-se para todos os seres vivos do Planeta, e isso nos garante uma consciência tranqüila que nos impulsiona a uma prática comunitária, livre e feliz. Assim, podemos continuar falando não em "eu", ou "você", até mesmo em "nós e eles", mas em "nós todos".

E deste "nós todos" espalhados pelo mundo, reconhecemos todos os irmãos indígenas e não-indígenas que passam necessidades como nós daqui, das Américas, do continente indecifrável que se recusa a entregar as armas. E mesmo quando somos pressionados a nos entregar, recuamos mas não para nos render à luta, mas para resistir mais ainda e nos munir com a mais sensível artilharia, do tipo que acerta o coração sem machucar a pele: a Palavra.

A Palavra que usamos agora é a mesma que mantém nosso sistema milenar, apesar dos constantes ataques colonizadores, pois é dita com base nas palavras de nossos antigos, nossos avós, nossos Tcheramoi. Estes que nunca nos deixaram sem bons conselhos, sempre nos acolheram nas situações mais desesperadoras com sua esperança e nos prepararam para enfrentar com simplicidade as complexas dificuldades que hoje se apresentam.

"Estamos em épocas proféticas, atravessamos um caminho sem volta", assim nos dizem os Tcheramoi Guarani, os sábios que vêm do passado e nos avisam sobre o futuro que virá.

"Você viu? Eu tinha lhe falado que ia acontecer em breve, meu filho. Você acredita agora?" - perguntou-me Tcheramoi, observando minha cabeça confusa pelo excesso de informação que nos engole todos os dias em noticiários de TV.

"Acredito, Tcheramoi" - confessei. "Agora acredito por que vi suas palavras se tornaram realidade em frente aos meus olhos". Nos referíamos ao Cilcone Extra-tropical que abateu a costa sul-brasileira no início de 2004, e também às ondas Tsunami que arrasaram as praias orientais. Ele havia avisado que seria apenas o começo e um sinal de que deveríamos repensar nossas vidas, questionando-nos se estamos realmente no caminho certo.

"Sempre haverá muitos caminhos a escolher, e fomos feitos assim mesmo, livres para escolher o caminho. Mas temos de nos cuidar na escolha, por que nem sempre o mais fácil e bonito será o caminho certo. Por isso é importante os ensinamentos dos antigos, com eles aprendemos a perceber para onde deveremos seguir" - contou-me Tcheramoi. "Assim aprendi com meus avós e por isso ensino aos meus netos, para nunca esquecermos do nosso Sistema".

Vivemos por milênios na indecifrável América indígena, dentro das invisíveis comunidades Guarani, e é no interior das resguardadas Casas de Reza - OPY - que se revelam os conhecimentos mais profundos: a Ciência Guarani. É deste lugar que surge a mais refinada munição para proteção de nosso povo daquilo que virá acontecer com todos os humanos da Terra: a realização das vontades de nossos deuses.

"Nada foi feito contra a natureza sem que esteja anotado nos cadernos dos criadores", assim nos ensinaram os Tcheramoi. Agora tudo que aconteceu será relembrado, realizado e sentido pelos que ainda se colocam como executores das maldades ancestrais. O Planeta ficou sem seus divinos cabelos de proteção da pele, sem seu divino sangue de purificação da carne e, por isso, agora será cobrada a destruição das incontáveis árvores e poluição dos purificantes rios.

Os que ainda seguem o caminho da destruição - que do ponto de vista das aldeias indígenas reconhecemos como o pensamento des-envolvimentista (ver Palavra Guarani, "O Silêncio dos Antigos", em www.tamoi.cjb.net) - estes serão os que mais sofrerão com os acontecimentos do futuro, pois sua educação em seu sistema de vida não os preparou para sobreviver dos frutos puros da terra, pois eles alimentam-se dos frutos impuros da exploração do homem pelo homem.

Aos que chamam este sistema de exploração de Capitalismo, reconhecem em nossas palavras que somos contrários a ele. Porém, não estamos aqui para segurar nenhuma outra bandeira já levantada no ocidente, pois nos negamos há 500 anos a participar do mundo que os ocidentais vêm construindo.

Entretanto, não num sentido oposto ao sistema capitalista (pois não há apenas dois sentidos ou dois caminhos, mas vários!), e por sermos indígenas, por sermos Guarani, declaramos que temos no interior de nossas aldeias o nosso próprio sistema de vida: o Sistema Tamoi.

O que é o Sistema Tamoi? É o simples sistema dos Tcheramoi, viver de acordo com os ensinamentos dos nossos avós, em que eles, os nossos sábios é quem dizem o caminho que devemos seguir. Assim, a comunidade se reúnem e todos ouvem a palavra sábia, refletindo sobre ela e chegando a um consenso.

Aparentemente fácil, entretanto difícil manter este sistema intacto com 500 anos de ataques:

* à nossas aldeias, avançando as cidades floresta adentro nos deixando encurralados em pequenas áreas;
* à nossas comunidades, impondo outro sistema de organização social pela falta de sensibilidade em perceber a diferença;
* à nossas vidas, nos impedindo de permanecer tranqüilos em áreas agricultáveis, com caça e pesca, com florestas e rios;
* à nossa esperança, fadando um mundo unilateral com a globalização do mercado;
* às nossas crenças, nos afastando dos remédios naturais que conhecemos e desrespeitando a saúde indígena através de médicos doutrinados pela ciência acadêmica;
* a nosso cotidiano, com as ameaças constantes de nos retirar de nossas terras ancestrais nos impedindo de vivenciar a cultura repassando-a assim às nossas crianças.

São por estes motivos, entre outros que estenderiam esta carta, que nos levam a acreditar nas palavras dos antigos, que nos levam a escrever esta Palavra Guarani e fazê-la ecoar pelos confins do Planeta, onde encontre corações atentos e sensíveis, sinceros e prestativos, com propósitos semelhantes aos nossos.

São por estes motivos que amanhecemos todos os dias rumo a um futuro melhor, a um mundo melhor, respeitando os sinais das divindades da natureza: antes, o primeiro de uma série de Ciclones no Hemisfério Sul e as Tsunami devastadoras em 2004, e agora, em 2005, o Katrina nos Estados Unidos e o Terremoto na Ásia, inundações e secas devastando as poucas florestas na Europa como em outras partes do mundo ocidentalizado.

Por isso, repetimos, nossas comunidades não se entregam, mesmo após 500 anos. Mantemo-nos resistentes, cada vez mais, e como prova disso manifestamos nosso apoio a todos e todas que estiverem sentindo em seu coração o desejo de mudar seu sistema de vida, de buscar um novo mundo onde a harmonia e saúde sejam possíveis aos que não têm posses. Apoiamos as iniciativas mais variadas de reinvenção do mundo ocidental mesclados com o mundo indígena, os chamados Alter-Nativos, como também os sempre jovens Alter-mundistas.

Porém, assim como apoiamos, viemos pedir vosso apoio. E deste modo estamos nos movimentando através de denúncia e mobilização contra:

* o desmatamento, como feito na Argentina, província de Missiones;
* a expulsão de indígenas de suas terras por agroinvestidores de soja transgênica, no Paraguay;
* no Brasil, estado de Mato Grosso do Sul, território ancestral Guarani, ocupado pelo Governo brasileiro na Guerra do Paraguay, onde nossos irmãos Kaiowa sofrem com a falta de terras e, apesar de conseguirem a demarcação pelo Ministério da Justiça, os agroindustriais e criadores de gado impedem que seja feita justiça para um povo que sofreu com o dizimamento de sua população, importunando o cotidianos da construção de um futuro Guarani-Kaiowa neste país;
* no estado do Paraná, que após a construção da Hidrelétrica de Itaipu, deixou desterrada centenas de famílias indígenas Guarani que, até hoje, lutam para garantir um espaço de terra compatível com as necessidades de seu sistema para viver;
* em Espírito Santo, com a ocupação da empresa Aracruz Celulose, os Guarani e Tupinikim demostraram quem realmente está interessado na não demarcação das terra indígenas;
* e no estado de Santa Catarina, o Kaingang e Guarani da Terra Indígena Toldo Pinhal, nos municípios de Seara, Arvoredo e Paial, iniciam suas atividades para chamar a atenção do Ministério da Justiça quanto a situação de sua terra que espera pela Demarcação;
* também em Santa Catarina, a Comunidade Mbya Guarani da Aldeia Morro dos Cavalos está em plena Campanha pela Demarcação de sua área que já devia estar demarcada, conforme a Constituição brasileira de 1988, art. 231 e Decreto nº 1775 de 1996, há quase dois anos, deixando o Ministro da Justiça Márcio Thomas Bastos em situação ilegal por não ter feito nenhuma declaração quanto a situação do processo desta área.

Portanto, encerrando esta interferência em sua caixa de mensagens, nos desculpando pela intromissão em seu cotidiano, porém reafirmando que esta é das únicas armas que nos resta, a Palavra, pedimos que nos ajude divulgando este comunicado e fazendo-o ecoar percorrendo os múltiplos caminhos que se é possível para encontrar o coração humano.

Por aqui, o sol já aparece. Inicia-se um novo dia, com mais esperança, carinho e amor. O fogo já cumpriu sua missão de reacender a chama da vida. O ritual do mate continua, alternado com a fumaça do cachimbo. Bons dias a todos e todas. Do silêncio das montanhas, entre as árvores e longe do barulho das cidades, desejamos a todos os que são e os que serão nossos amigos no futuro, e que, como nós, sentem-se preocupados com os que virão e de modo algum querem deixar a eles uma herança de destruição.

A vocês, que como os Guarani, são também amigos do futuro, e assim como os nossos antepassados indígenas lutaram para que hoje estejamos com uma vida harmoniosa em nossos Sistema Tamoi, também lutaremos para garantir aos que virão uma vida bela num Planeta limpo para habitarem em paz.

Aguydjewete
Saudações

Sob o vento frio no final de Inverno de 2005
De uma Aldeia Indígena Guarani

Tupã Ray - Filho de Tupã

Ps.: Você pode apoiar a Demarcação da Terra Indígena Morro dos Cavalos, em Santa Catarina, através do sitio www.terraguarani.org.br e acompanhar informações sobre os Guarani e outras nações indígenas em www.cimi.org.br ou ainda www.adital.org.br e www.midiaindependente.org .

16.6.05

Palavra Guarani - Silêncio dos Antigos

Desde o coração da mata, protegidos pelas montanhas, atentos ao...

Silêncio dos Antigos.

Aguydjewete
Saudações!


Desculpem a interferência em suas caixas de e-mails, mas fomos obrigados a fazer este comunicado que chamamos de Palavra Guarani. As palavras abaixo infelizmente não seguem um padrão de Direito, nem mesmo de Diplomacia, talvez por isso não deva ser dada atenção por aqueles que não estão acostumados a ouvir os que estão por baixo. Mesmo assim não deixaremos de ter esperança de que nos ouçam, nos leiam, e que saibam do que passa em nossos corações.

Estas palavras, portanto, antecipando um pedido de desculpas, foram escritas de pernas ao ar, isto é, de ponta-cabeça. Não que o corpo que escreve esteja brincando com a lei da gravidade, sendo que tampouco foi escrita por um corpo apenas, mas elaborada por variados, centenas, milhares, talvez milhões de corpos. E todos este corpos estão agora de ponta-cabeça, pois é assim que se encaixam melhor no mundo, é deste modo que se sentem livres para continuar vivendo e seguros para dirigir a voz aos interessados. Estes corpos aprenderam com seus antepassados a viver assim, de um jeito diferente, de uma maneira aparentemente destorcida. Pois quando se pensa em mundo globalizado, em que a ordem é progresso, tais corpos parecem estar realmente mergulhados em um rio que os empurra cada vez mais para onde não querem ir: para trás!

E é de trás que vem o impulso que nos faz enfrentar a forte correnteza e dizer aqui o que nossos corações sentem, em nossas aldeias, as aldeias indígenas, nas milenares comunidades que habitavam, ainda habitam e querem continuar habitando este território hoje chamado de Brasil. Aqui, de onde falamos, a ordem não é progresso, mas a ordem é resistência. Aliás, nem precisamos chamar de ordem, pois esta existe somente onde há alguém que possa contrariá-la, por isso necessita-se assegurar que será cumprida. Conosco, nas aldeias, é diferente; mais uma vez parecemos ir na contra-mão, contra a maré. Em nossas aldeias todos sabem o que todos devem fazer para continuarmos vivendo felizes, pois todos sabem o que disseram os mais velhos, os que nos impulsionam lá trás.

Os mais velhos são nossas bibliotecas, eles quem conhecem o mundo há mais tempo que nós e por isso devemos ouvi-los, em silêncio. Porém um mais-velho não fala a toda hora, quando quisermos; é preciso chegar o momento para ouvi-lo, estar preparado. Somente aí ele dará seus conselhos que nos fará superar os sofrimentos no futuro. Até hoje, nestes milhares de anos que existimos nestas terras, talvez nunca se ouviu de um mais-velho que deveríamos derrubar as árvores, poluir as águas, esfumaçar o céu. Por vezes repetiram os Tcheramoi (é assim que chamamos os nossos avós na língua Guarani, a qual falamos em nossas aldeias) que devemos sempre procurar estar envolvidos pela mata, nunca longe dela. Quem sabe (com o perdão do uso da palavra de alguns antigos) seja este o problema que viemos enfrentando. Para nos manter envolvidos temos que viver remando contra os que não querem se envolver nas florestas. A estes que nos olham e percebem que nossos corpos não estão na mesma posição que a sua; a estes que nos vêem e pensam que estamos de cabeça para baixo, remando contra sua maré, a estes queremos que ouçam nosso silêncio.

Agora nosso corpo que escreve já está de cabeça para cima, com os pés firmes no chão. Porém nossos olhos, que enxergam o mundo do ponto de vista das aldeias indígenas, nos mostram que algo está diferente: é o mundo que está de pernas ao ar. Isto nos deixa felizes, pois nos trás a tranqüilidade no coração de que não somos nós que não queremos mais seguir os conselhos dos antigos para continuar num mundo inserido; mas é o mundo invertido que se apresenta a nós e nos empurra a ver como ele deseja. Será que ele não aprendeu com seus mais velhos que se deve ter respeito aos diferentes? "Com certeza não...", diz-me uma voz ao ouvido, "mas talvez tenha chance de aprender um dia!". É a voz de Tcheramoi. Ele é quem nos aconselha mesmo quando não está presente, na verdade é impossível vê-lo, por que nunca estará em frente aos olhos, mas ao lado dos ouvidos; é aquela voz que todo indígena aprende a ouvir deste criança. Diz ele agora que "Se continuarem assim, não haverá mais onde viver inserido".

Quem sabe seja isso que querem Tcheramoi, viver não-envolvidos pela mata, por isso teimam em falar tanto em des-envolvimento. Esta palavra dita com tanta facilidade equivale a progresso, também muita ouvida em discursos. Isto tudo significa a ampliação dos meios de subsistência, quanto mais recursos tiverem para explorar e vender como mercadoria, melhor para o progresso. "Não seria melhor trocar pro-gresso por in-gresso?", diz sorrindo Tcheramoi. Talvez! Quem sabe assim compreenderiam nossa lógica e passariam a ver o mundo do ponto de vista das aldeias, um mundo inserido na natureza, onde a busca pela felicidade não passa por ter ou não dinheiro.

É isso que nos leva a comunicar, a dizer estas palavras. Mais uma vez, em nome do progresso, querem que todos vejam o Brasil como se estivesse chegando na frente numa corrida contra a própria sombra. Mais uma vez tentam fazer com que a sociedade civil una sua voz ao grito de vitória. Mas nós, as comunidades indígenas, sem querer estragar a festa, viemos perguntar: mas vitória de quê? Qual é o jogo? Quem são os adversários?

Do ponto de vista que temos, de onde enxergamos um mundo invertido, por mais que procuramos não conseguimos encontrar nenhuma corrida. Não há lugar a chegar! O que vemos, e por isso viemos alertá-los, é que se continuarem assim não haverá como estabelecer ponto de chegada, nem aos que correm hoje, muito menos aos seus descendentes. Nesta estranha corrida, que mais parece uma fuga do próprio passado, colocam em risco a existência de um futuro de todos.

Dizemos isto não por uma voz apenas, mas por todas as vozes indígenas que ainda vivem e, principalmente, pelas vozes silenciosas que jazem em suas urnas funerárias, construídas por nossos antepassados não para serem hoje retiradas e colocadas em museus, nem para serem destruídas por tratores de lavoura, muito menos para serem pisoteadas por rodas de caminhões e carros, como é o caso dos sítios arqueológicos no trecho a ser duplicado da BR-101 em Santa Catarina.

Por isso nos prepusemos fazer ecoar estas palavras, que não querem ser palavras que tenham como destino o esquecimento do subsolo, pois é de lá que saíram. São as palavras dos que estão por baixo, dos que jamais foram esquecidos por nós, dos que querem seguir vivendo sua eternidade de acordo com os rituais milenares indígenas. São as palavras pronunciadas pelos avós, pelos mais-velhos, que não querem ver seus descendentes indo de acordo com a maré, pois isto para eles é ir para trás. Estas são as palavras dos indígenas, cansados de ouvir o ruído de um mundo em desabamento, mas esperançosos e prontos para defender um mundo como ele era há 500 anos. Esta é a palavra dos que querem continuar vivendo o silêncio dos antigos.

6 de Junho de 2005
De alguma aldeia Guarani no Brasil

Tupã Ray – Filho de Tupã

24.5.05

Palavra Guarani - III Encontro Cultural Zumbalaeka

Palavra Guarani
Ayu ete Mbya

Aguyjewete
Boa tarde a todos.

Viemos da Aldeia Guarani para cantar e também falar um pouco para vocês da nossa situação.

Antigamente nós guarani, em todas as aldeia não precisavam mostrar o canto e dança, porque era somente para os guarani. Estes cantos e danças, até hoje, é sagrado para os Guarani.
Mas também atualmente temos de mostrar aos não-índios para valorizar nossa cultura. Agora muitos brancos nos olham e se perguntam se ainda somos índios.
Mas queremos mostrar que ainda temos nossa tradição, nossa língua, nossa religião.

Pensamos que não importa qual a religião que se acredite, nós acreditamos em vários deuses, mas acima deles existe UM, o Nhanderu.
Isso é muito importante para nós, apesar de existirem vários nomes para o Deus, ele é o mesmo.
Por exemplo, aquilo que vocês chamam de MAR, nós chamamos de PARA NHEMBOUVEI e existem nomes diferentes em línguas diferentes, mas aquela água salgada e sagrada é a mesma.

A TERRA para nós também é sagrada. Vocês acham que a terra pertence a quem?
A uma pessoa? Ao Estado? A quem trabalha nela?
Nós Guarani acreditamos que a terra não pertence a ninguém.
Ela foi criada por Nhanderu e nós estamos aqui por um tempo, não podemos ser donos dela. Por que antes de nós viveram os antigos e no futuro viverão nossos filhos.
E eles também vão passar por aqui e terão que cuidar da terra para os filhos deles.
Principalmente as matas. Não podemos deixar a terra deserta, cheia de lixo. Temos que deixar limpa.

Agora temos uma escola na aldeia. Mas para nós é muito difícil, por que na escola ensinamos as crianças sobre os animais da mata, as plantas. Mas as crianças aprendem somente pelo desenho, pela foto. Infelizmente não podem aprender vendo os bichos na floresta, caçando, ouvindo o canto dos pássaros. Com os desmatamentos e caçadas dos brancos, tudo foi se acabando e isso nos deixa muito triste.

Assim, não são só as crianças guarani que irão sofrer com isso. Os filhos dos brancos também irão sofrer.

Os brancos pensam que o dinheiro é mais importante.Se seus filhos estiverem bem, está tudo bem. Mas nós guarani não. Por que nós pensamos em todos.
É por isso que nós guarani até hoje lutamos para não esquecer da cultura, apesar de milhares de não-índios estarem nos apertando em nossas pequenas aldeias.

Por ser tão pequenas, não conseguimos mais plantar e caçar como antigamente. Por isso fazemos artesanato e mostramos nosso canto sagrado a vocês. Isto é nosso segredo, nosso valor. Não era para vender. Mas para sobreviver temos que vender os bichinhos de madeira, os artesanatos. Hoje temos até que mostrar nosso canto sagrado.
Antigamente nossos guerreiros iam pra mata, mas hoje eles vem até a cidade para conseguir viver.

Os brancos poderosos dizem que os indígenas vem pra cidade para mendigar, mas na verdade não é assim.
Roubaram nossa sobrevivência do mato, e por isso viemos até a cidade para sobreviver. Não somos vagabundos, estamos querendo viver e alimentar nossos filhos.

Nossas músicas não falam de paixão, bebida, dor de cotovelo. Não cantamos por cantar. Nossa música fala de deus. Fala da necessidade de uma terra para morar.
Uma terra para plantar, caçar, pescar e fazer nossa casa de reza, que chamamos de OPY.

Haevete pe japytchaka ramo

Muito obrigado pela atenção.

Do III Encontro Cultural Zumbalaeka
UDESC, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, América do Sul, Planeta Terra.

21 de Maio de 2005

Krai Mirim

10.5.05

Discurso proferirido no encontro sobre o Tape Aviru (Peabiru) em Pitangas - PR - BRA

Palavras que constroem mundos

Bons dias a todos, senhoras e senhores, mulheres e homens!

É com imensa honra que trago aqui uma breve contribuição neste encontro internacional sobre o Caminho do Peabiru.
Peço desculpas por não iniciar me apresentando corretamente, explicando quem sou e porque estou aqui. Mas prometo que isso será corrigido ao longo do texto que vou ler, cujo título é
"palavras que constroem mundos".


Numa manhã fria, não muito diferente das outras manhãs em que acordamos cedo esperando que o calor saia de trás da montanha e espante as nuvens que insistem em nos cobrir, parecendo mães que demoram a perceber nos filhos a necessidade de tomar seu lugar ao sol.
Ainda me espreguiçava sobre o colchão, dentro da casinha de madeira construída no alto do morro, que nos dias de vento sul nos obriga a agradecer a habilidade das mãos indígenas do mestre de obras, se não voaríamos como uma pipa em direção ao asfalto. E é deste temeroso asfalto que vem o ruído interminável dos caminhões e carros, levando e trazendo além de pessoas, parte da riqueza produzida nas indústrias do extremo sul do país. Como uma imensa cobra negra - lembrando da profecia dos velhos que ali moravam, sobre o dia da aparição de uma imensa cobra que levaria muitas vidas - temos estrada, que faz centenas de pessoas, diariamente, cortar a aldeia, sem pedir licença, nem dizer Adeus. E enquanto eles passam, nós ficamos...

Quem são estes? Os que ficam? São conhecidos como Guarani, reconhecidos como a maior nação indígena que habita o território do Mercosul; porém desconhecidos da população brasileira, argentina e uruguaia, e por vezes considerados fatos do passado ou confundidos com estrangeiros.
Desta aldeia, que de um lado tem o Rio Massiambu, de outro o antigo "porto solis", hoje Enseada do Brito, local de milenar habitação guarani. A este pequeno espaço exprimido pela exploração turística das belas praias catarinenses é que vivem algumas famílias indígenas, em casinhas inacreditavelmente grudadas no morro. E quando não suportam mais o ruído da auto estrada (que será duplicado em pouco tempo, em nome do progresso!) mudam-se para a Aldeia Massiambu: outro morro de 5 hectares, resgatado por um decreto judicial após a prisão do proprietário, um traficante de cocaína que ali vivia.

Neste contexto, tendo o dia clareado um pouco mais e as nuvens aprendido com as mães arrependidas por cobrirem os filhos muito tempo, é que o sol aparece permitindo que busquemos seu calor.
A luz penetra na casa iluminando o rosto de Leonardo, o Wera Tupã, liderança indígena nacional, intelectual guarani, grande pesquisador da própria cultura e da cultura dos brancos. Agora, além de ídolo, meu grande amigo e companheiro de quarto. Foi nesta manhã, quando cumpríamos o ritual do despertar, vagarosamente como o movimento das nuvens, ele me surpreendeu com um convite.

- Quero que você vá a um lugar para mim.
- Sim - aceitei acreditando que não passaria de uma visita a um de nossos amigos, para levar ou trazer alguma coisa.
- Lembra daquele encontro que fui, sobre o Tape Aviru?
- Sim, lembro. Foi no Paraná.
- Acontecerá novamente e quero que você vá no meu lugar.
Surpreso, confesso que não compreendi qual seria minha utilidade nesta ocasião.
- Você vai participar do encontro e falar sobre os guarani - disse ele, percebendo rápido minha aflição.
- Como assim? Mas eu não sou guarani... - retruquei.
- Mas você já trabalhou como pesquisador pela Universidade, já viajou para várias aldeias, agora trabalha como professor aqui na nossa escola e está morando com agente. Acredito que sabe o suficiente para tirar as dúvidas do pessoal no encontro...
- Ou confundi-los mais ainda! - afirmei entre risos. Eles irão perguntar meu nome. O que direi? Não quero que pensem que tenho interesse particular nisso.
- Então - disse Werá Tupã - diga aquilo que te falei um dia. Que diz uma profecia Guarani que alguns brancos iriam nascer com alma indígena, e iriam dedicar suas vidas a nos ajudar. Uma vez você mesmo falou que nunca se adaptou a vida na cidade e, quando conheceu uma aldeia, sentiu como se estivesse em casa. Este é um sinal de Tupã. E a estas pessoas nós os chamamos de "Tupã Ray" - os Filhos de Tupã. Diga também que você não é o único Tupã Ray que conheço. Também tem a Rosana Bond, mas ela é Tupã Radhy - Filha de Tupã. Com certeza lá terão muitos outros.

Quando começava a imaginar-me falando a uma platéia, pensei em desistir, mas fui interrompido pela chegada do Tcheramoi. Tcheramoi é a palavra guarani traduzida como "meu avô", porém é mais do que isso. Ela é usada para todos os mais velhos das aldeias, tenha ou não uma relação de parentesco. Eles são como as bibliotecas, os arquivos da cultura indígena, sabem de tudo e tem conselhos para tudo. São os sábios que garantem a passagem dos conhecimentos às novas gerações. E este que recém chegou é de uma linhagem que só aparece na cabeça das pessoas, não tem existência real, mas vive dando conselhos aos mais novos a toda hora, não importa o que estejam fazendo.

- Aceita ou não? - perguntou Werá Tupã.
- Sim... - disse eu, repetindo a voz do Tcheramoi dentro da minha cabeça. - Mas o que vou dizer a eles?
- Você vai explicar a situação das aldeias, como vivemos, os problemas que enfrentamos...
- Mas se trata de um encontro sobre o Tape Aviru. Ele não vão querer ouvir a versão dos próprios guarani?
- Sim, mas é disso mesmo que você vai falar: que nosso problema começa na descoberta do Tape Aviru pelos europeus. Foi pelo caminho sagrado que eles entraram em contato com nossa aldeias. Você pode dizer também que as principais estradas de hoje, como a própria BR 101, é uma sobreposição ao antigo caminho sagrado. E que também as cidades foram construídas sobre as aldeias.
- Sim - concordei. - Posso contar que os antigos usavam o Tape Aviru para andar por todo o território guarani, que não se resume ao limite das atuaios demarcações, mas desde o Paraguay, Argentina, Bolívia, Uruguay até o Brasil, encontrando o Oceano Atlântico.
- E não esqueça que, graças ao Tape Aviru, hoje os brancos construíram este países que você nomeou, vivendo tranqüilos hoje. E isso não seria possível se os guarani se negassem a ensinar os caminhos, levando-os até o interior do continente.

Um silêncio se fez neste momento. Silêncio comum nas aldeias indígenas. Momento em que as pessoas param de falar para refletir, contemplar. Ou talvez ouvir a voz do Tcheramoi. Aliás, não sei o que este disse a Wera Tupã, mas consegui ouvir as palavras sussurradas na minha cabeça: "E se tivéssemos nos negado?!"

Como quem fala sozinho, passei a conversar com Tcheramoi.
"Se tivessem negado, os fatos com certeza seriam diferentes. Muitas aldeias poderiam estar protegidas pelas matas e os guarani, como outras nações indígenas, viveriam do jeito que seus deuses os ensinaram. Nada faltaria!"
Talvez Tcheramoi tenha me ouvido, e resolveu responder através de Wera Tupã, que interrompeu o silêncio dizendo:

- Não se esqueça de falar que os guarani sentem-se enganados por confiarem nos brancos. O trauma é tão grande que até hoje uma pessoa branca tem de conviver muito tempo para confiarmos nela. Os antigos acreditaram que os europeus eram pessoas sagradas, dignas de respeito, assim como consideravam que os Incas eram Nhanderu Mirim, os perfeitos. Queriam aprender com os brancos como aprenderam com os Incas, e por isso ensinaram o que sabiam, mas no final fomos enganados.
Outro silêncio comovedor instalou-se. Respirei fundo e perguntei:
- Mas não houve nenhuma guerra entre os guarani e os brancos em 1500?
- Não - respondeu. - Não era costume do Guarani fazer guerra, sempre buscamos a paz e, por isso nos espalhamos por este território do Paraguay ao Brasil, por que não queríamos confusão e preferíamos nos afastar.
- Muitos brancos tem escrito livros dizendo que os guarani, em suas caminhadas, faziam guerras contra outros povos. O que vou dizer se eles perguntarem sobre isso?
- Aí você pode contar a eles que a guerra começou depois da chegada dos europeus aqui.
- Isso sei fazer bem - afirmei - Estudei um pouco sobre filosofia e conheço as raízes do pensamento ocidental. Vou lembrá-los então que, na verdade, quem tem cultura de guerra não são os indígenas; mas os ocidentais. Poderia contar a eles sobre a diferença que há entre os mitos de origem dos guarani e dos gregos. Os guarani, por exemplo, contam a história dos gêmeos (sol e lua) que saíram em busca da casa de seu pai. No caminho não lembro de ouvir falar que travaram guerra com alguém. Já os ocidentais, se analisarmos as histórias gregas, encontraremos o relato de muitas batalhas. Primeiramente, no próprio mito de surgimento do mundo, contavam os gregos que Urano, primeiro habitante da terra, teria sido morto por seu próprio filho, Kronos. Este, então, matava seus descendente para evitar que fizessem consigo o que fez com o pai. Mas, por fim, Zeus, filho de Kronos que conseguiu fugir, voltou quando adulto para aniquilar o pai. Este mesmo Zeus depois se tornaria o imperador do universo.

- E os brancos contam esta história aos mais jovens? - perguntou Wera Tupã.
- Você acha? - satirizei - Talvez nem eles saibam. Esta história é muita antiga e, acredito eu, está tão entranhada da cultura ocidental o suficiente para pensarem que todos os povos travaram batalhas. Até vivem repetindo na TV de que temos de ser competidores se não estaremos fracassados. Competição , para mim, é uma forma de guerra. Sutil, mas é uma guerra. Quem sabe um dia faça um estudo sobre a microfísica da Guerra!
- O que? - perguntou Werá Tupã.
Percebendo minha viajem, tratei de retornar logo.
- Quanto aos próprios Incas, pesquisadores dizem que eram dominadores. O que até poderiam ser, mas nada parecido com a dominação feita pelos europeus.
- Talvez - brincou Wera Tupã - eles digam que outros eram dominadores para aliviar o peso na consciência.

Depois das divagações, brincamos um pouco mais com as palavras, mas ainda confuso, perguntei:
- Mas por que exatamente resolveram levantar a história do Tape Aviru agora, por que não o fizeram antes? E qual interesse há nisto?
- Não sei direito - sorriu ele - mas tem a ver com turismo. - Mas o que interessa para os Guarani é que saibam que ainda estamos aqui, não somos parte do passado e temos grande participação na história destes países. Isto deve ser reconhecido.

Tcheramoi, mais uma vez surgiu em nossas cabeças. Me disse coisas que fez pensar que, até agora, muitos brancos não sabiam do Tape Aviru, nem do grupo de Aleixo Garcia. Mas com a realização destes encontros somada a uma forte divulgação, aos poucos o que é discurso irá se transformando em realidade. Mas qual realidade será construída no futuro?
E se eu aproveitasse a ocasião para perguntar aos interessados quais seus verdadeiros interesses? Não seria quebrar demais o protocolo?
- Mas você não está no colo de ninguém para quebrá-lo - disse Tcheramoi, num pulo, falando alto, quase me causando dor de cabeça.
- Sim, eu sei. - eu disse. - Mas há que tomar cuidado com a diplomacia!
-Então não se esqueça de levar seu diploma! - retrucou o velho imaginário, já de costas, indo embora.

É... pelo visto terei de cumprir esta missão sozinho!
Mas procurarei fazer suavemente, com introdução e tudo exatamente como aprendi na Academia. Lá vai.
Recentemente estive no Peru, em visita às ruínas Incas. Impressionei-me com a beleza, obviamente, mas também me chamou a atenção a intensiva presença Inca na vida do país. Não a riqueza, mas a pobreza. Pelas ruas, são as crianças, descendentes do império incaico, quem nos param para suplicar que compremos suvenires. Pelas cidades, são as casas e barracos dos poderosos Incas que se grudas nas montanhas. No Caminho Inca, são os que trazem nas veias o sangue dos antepassados que carregam nossas barracas e mochilas, que preparam nossa refeição, que desmontam tudo e montam outra vez. Tudo isso em troca de alguns dólares ou euros vindos diretamente das mãos estrangeiras: os turistas!
A dúvida seria a seguinte: qual risco que corremos, nós, os indígenas de... de...
(Desculpem. É que Tcehramoi acaba de chegar aqui, está presente conosco e me deixando com dor de cabeça. Diz ele que eu devo perguntar logo, se não vai me obrigar a sentar em seu colo! - risos)
Qual mundo que será construído pelas palavras ditas neste encontro? Para, mais uma vez, buscar o tesouro através do Tape Aviru? Ou realmente devolver o caminho aos indígenas para que possam encontrar a terra sem mal?
Que esta pergunta não se perca nos caminhos do pensamento!

(Silêncio...)
(Diz o Tcheramoi, aqui ao meu lado, que Aleixo Garcia também está presente! Confirmou que, como um filho que quis sair da sombra da mãe muito cedo, Garcia se arrependeu por buscar tão gananciosamente um lugar no Império do Sol! Pois junto a sua tragédia ambiciosa, acabou levando uma nação que o havia conferido um segredo.)


Bons Dias a todos.
Pitangas, Paraná, 17 de Abril de 2005

Tupã Ray